“Don’t be afraid to ask. New Yorkers are nice.” Union Square, ao início da noite. Um homem simpático, de fato, reparou que eu espetava o nariz no mapa dos autocarros. New Yorkers. Uma meia hora antes, tinha visto e ouvido, por acaso, um dos meus New Yorkers preferidos. Paul Auster a fazer uma leitura do seu último livro na Barnes and Noble.
E assim se vai uma semana. Os barulhos aqui no prédio já quase parecem familiares. Enquanto escrevo, sobem e descem os meus vizinhos com cães. Agora são uns alemães a falar alto. Um pouco mais agitado do que o meu primeiro esquerdo. O lá de casa. Mas este 1D será aquele a que vou chamar casa nos próximos dois meses. Próximas sete semanas para ser exacta. Conheci a vizinha do terceiro andar que esta manhã já me tratou por Ana e eu que não me lembro do nome dela apenas do cão, o Bailleys, afável, pelo curto, orelhudo e surdo. “He likes ladies”, disse-me ela. E eu sorri enquanto me dizia que se eu precisasse de alguma coisa, lá estava no terceiro andar por cima de mim.
Estou rodeada por farmácias. O que sempre dá um certo sossego. Posso ir comprar um garrafão de Tylenol ou Advil a qualquer hora. À frente uma Igreja, mesmo ao lado um Centro ayurvedico, uma loja de chaves, uma deli.
Passei uma semana sem urgência de fazer nada. Apenas a ambientar-me, a caminhar para as aulas. A pensar que gosto do conceito do que estou a fazer. Um workshop de screenwriting na NYFA e ficar aqui dois meses. Mas, por mais bizarro que isto pareça em mim, para além do conceito, estou a gostar de o fazer. Assim, um dia de cada vez.
A escola. Aprende-se um método, uma receita de filmes, uma estrutura. E depois aplica-se. Por enquanto, acompanho o que o Ben diz, lively, eu mais a indiana, o sueco, o norueguês que deve ter mais uns 20 anos que eu (um elemento do elenco que muito desejava que aparecesse. Sim, não sou a mais velha), os argentinos, o sul africano, a russa que nunca tinha ouvido falado do Saturday Night Fever, mas que de certeza conhece bem o Couraçado Potemkim. Mas estamos aqui para aprender esta receita de cinema. Por isso, vimos e analisámos na aula “Working Girl”. Sim, esse mesmo de 1987, de Mike Nichols com Harrison Ford, Sigourney Weaver e Melanie Griffith.
Hoje é sexta.
Ontem foi 11 de Setembro. A data. No Ground Zero havia de tudo. Uma manifestação a pedir uma investigação exacta dos factos. Rapazes com tshirts que diziam "9/11 was an inside job.", polícias e polícias, turistas e turistas e patriotas e altares em memória. Há nesta cidade lugar para tudo. Por isso, nos próximos dois meses - sete semanas para ser exacta - haverá lugar para mim.
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